Diário de um Suicida, de Wennes Mota

 Diário de um Suicida narra a vida de Klaus, um jovem que atravessa uma infância solitária e uma tumultuada adolescência. Ambientado em uma pequena cidade permeada pelo preconceito, o livro mergulha nas barreiras enfrentadas por Klaus por ser homossexual, uma realidade que é agravada pelas normas sociais restritivas. Klaus luta para encontrar seu lugar em um mundo que parece rejeitá-lo, ao mesmo tempo em que batalha contra suas próprias dúvidas e inseguranças. Este livro é uma reflexão poética sobre a busca por identidade e pertencimento, fazendo um apelo poderoso para a mudança de conceitos e a valorização da diversidade.

Disponível no site Amazon nos formatos Kindle (e-book) e capa comum (impresso). 


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TERCEIRA GUERRA MUNDIAL? ?

 



 Não se pode prever com exatidão. Tudo pode acontecer, mas baseado nas concepções negativas que hoje a maior parte da população e governantes tem sobre guerra mundial, essa hipótese está praticamente fora de cogitação.  


Lendo hoje uma parte do livro “Sapien - uma breve história da humanidade”, de Yuval Noah Harari, me deparei com essa questão de conflitos e guerras, onde ele defende que estamos vivendo em tempos pacíficos, alegando que guerras podiam gerar lucros na era pré-moderna, mas hoje em dia geram prejuízos. 


O aclamado intelectual historiador Yuval aponta quatro fatores pelos quais é muito difícil eclodir uma nova guerra mundial: 

a) Capitalismo. O capitalismo prospera em ambientes de paz, onde se protege as propriedades privadas, os contratos são respeitados e a economia é estável; 

b) medo de um extermínio em massa. As armas nucleares podem causar danos apocalípticos ao planeta e ameaçar a sobrevivência da espécie humana;

c) elites e governos mais pacíficos. Hoje as pessoas de um modo geral, de cidadãos comuns a representantes do poder, estão cada vez mais empenhadas em promover a paz; e

d) mundo globalizado. Hoje os países estão cada vez mais dependentes uns dos outros e isso implica cultivar a tolerância. 


Até agora o conflito da Rússia com a Ucrânia só envolve os dois países. Os Estados Unidos e a OTAN não entraram diretamente no conflito porque estão preferindo optar por vias mais pacíficas para evitar mais mortes e barrar a ameaça do holocausto nuclear. As medidas que estão tomando são a imposição de sanções à Rússia e auxílio à população e tropas ucranianas. 


Acredita-se que com as sanções e a pressão internacional, além da desaprovação do próprio povo russo, o presidente Putin irá desistir da guerra. Ir contra acordos de paz seria uma forma de atestar o desejo de Putin de causar danos ao mundo. Ele irá ceder às pressões ou irá assombrar o mundo inteiro com medidas desesperadas e cruéis que marcará mais uma página sangrenta e sombria da história da humanidade? Saberemos em breve. Que prevaleça a primeira alternativa.

(Wennes Mota)

O ABOLICIONISMO, de Joaquim Nabuco

 



 

Em “O Abolicionismo”, Joaquim Nabuco faz severas críticas ao sistema escravagista, defende a libertação dos escravos o mais rápido possível, ao invés de forma gradual que apenas prolongava esse mal, mostra as consequências negativas graves dos séculos de escravidão para o país e para o povo.

O livro foi escrito em 1883, ou seja, ainda sob o efeito da lei de 1871, a Lei do Ventre Livre, o qual ele critica, pois por esta lei, apesar de todos os nascidos a partir de então serem considerados livres, eles ficavam presos aos seus senhores até os 21 anos.

Analisa todos os processos em relação às várias leis de libertação gradual dos escravos ao longo do século XIX, apontando o seu não cumprimento ou suas falhas. Como exemplo, temos a lei de 1831, onde a Inglaterra havia abolido o tráfico negreiro, mas as autoridades brasileiras agiam de forma negligente ao não punir severamente os traficantes que intensificaram a busca por escravos. Em tese, a partir dessa lei, todos os escravos que entravam em território nacional eram considerados livres, mas na prática isso não ocorria.

Em 1850, houve uma lei reforçando o fim do tráfico de escravos. A lei seguinte em favor dos escravos, a de 1871, tornavam livres os nascidos a partir daquela data, mas como vimos, não era de fato o que realmente acontecia.

Joaquim Nabuco defende o abolicionismo, o qual era severamente criticado por seus adversários, que acusavam aqueles de serem contra a pátria, contra os verdadeiramente brasileiros possuidores de riquezas e moral. Nabuco exalta os abolicionistas alegando que estes estão preocupados com o futuro do país, e que pelo contrário, são patriotas e querem ver a lavoura progredindo, pois o trabalho livre promove maior desenvolvimento do que o escravo. Os abolicionistas não atacam os senhores e nem suas propriedades, mas sim o sistema escravagista.

A escravidão, para Nabuco e os abolicionistas, corrompe as virtudes da nação, empobrece o solo com práticas arcaicas, impede a vinda de imigrantes livres, atrasa o desenvolvimento da indústria e do comércio, prende as cidades no atraso e promove um frágil enriquecimento, pois logo em seguida, geralmente, vem a bancarrota. Faz analogias com as colônias do sul dos Estados Unidos, seu consequente crescimento após a abolição da escravatura.

Abolir a escravidão não deveria ser o fim da luta por um país mais justo e humano. Para o eminente político e intelectual autor, dever-se-ia educar os libertos e integrá-los à sociedade para se apagarem ou diminuírem os efeitos de séculos de escravidão.

Uma leitura agradável, enriquecedora, pois, afinal de contas, ainda vivemos presos às consequências negativas da escravidão.

(Wennes Mota)

MINHA FORMAÇÃO, de Joaquim Nabuco

 



 

Em “Minha Formação”, Joaquim Nabuco narra os eventos mais importantes de sua vida, suas referências, influências intelectuais, experiências no exterior, contatos com pessoas poderosas e contribuição para a política brasileira.

Joaquim Nabuco foi um dos maiores defensores da abolição da escravatura, usou seu poder como deputado para defender a causa. Liberal, cosmopolita, intelectual e preocupado com o país, não hesitou em criticar a estrutura socio-econômica da qual era beneficiado.

Suas experiências no exterior reforçaram seus ideais políticos. Mantivera contato com pessoas poderosas e influentes em diversos país como Inglaterra, França (1873-1874),  Estados Unidos (1876-1877), além de ter tido um encontro com o papa Leão XIII, em 1888, no Vaticano, pedindo apoio para a libertação dos escravos, visto que o poder da maior autoridade da religião católica entre os católicos era incontestável.

Nabuco foi um político brilhante, de ideias, que percorria o mundo em busca de conhecimentos para que pudesse aplicá-los no Brasil. Esteve sempre em defesa dos escravos, o que considera sua maior contribuição para o país. Declarava que o Brasil continuaria a ter uma herança negativa da escravidão como caraterística nacional por muito tempo.

Erudito, de apreciador da literatura e das artes, passou para o ato criativo, chegando a escrever um livro de poemas em francês, “Amour et Dieu”,  língua que considerava a sua fonte de cultura. Apesar de elogiado por alguns sábios da França, Nabuco reconhecia suas deficiências nas artes. Seu interesse pela política era de um caráter universal e humanitário. Gostava das boas discussões que visavam solucionar os problemas, e detestava as paixões políticas partidárias e de conveniências que atrasavam o país.

Foi um político atuante e sábio que conquistou liberais e conservadores, e que até hoje conquista adeptos da esquerda e da direita. Essa versatilidade se dá por causa de sua postura de revolucionário conversador, a união de vários traços políticos, sem se prender a um lado de forma radical. Como liberal, era defensor da libertação dos escravos, a distribuição de terras, a integração do negro na sociedade. Seu lado conservador era notório pela sua defesa da monarquia parlamentarista e das instituições sociais que funcionavam e garantiam ordem. Para ele, a conquista de liberdades deveria ser para o bem estar comum e não para estabelecer anarquia, portanto, qualquer ato de mudança no sentido liberal deveria ser sensato.

Sua maior referência política foi Bagehot, cuja obra “A Constituição Inglesa’ se trata de uma defesa da constituição e da monarquia inglesas. Em sua mocidade via tanto a monarquia quanto o republicanismo com bons olhos até resolver visitar a Inglaterra, para analisar o sistema político de lá, e os Estados Unidos, para conferir de perto o republicanismo, tão debatido na época. Essas experiências lhe reforçaram ainda mais a sua defesa da monarquia, por causa da estabilidade e do respeito de que gozavam as instituições da monarquia inglesa, ao passo que o republicanismo nos Estados Unidos causa confusões e divisões a cada quatro anos, além de instituições não tão sólidas como as da Inglaterra.

Foi um grande admirador da cultura francesa, da rigidez inglesa e do progresso, liberdade e superioridade material dos americanos. Sua carreira política, como parlamentar ocorreu entre 1879 a 1889.

Nabuco cita vários amigos e parlamentares importantes na luta pela abolição, como André Rebouças e Gusmão Lobo. Tece elogios ao seu pai, grande influência política em sua vida, o barão de Tautphoeus, um estrangeiro intelectual, apaixonado pela natureza brasileira. Narra acontecimentos de sua infância na fazenda Massangana, onde cultivou os sentimentos fraternos para com os escravos, semente de sua luta política.

Impossível terminar de ler o livro e não se tornar um grande admirador desse cidadão, político e intelectual brasileiro. Alimentamos o desejo de reavaliar a nossa própria formação, as nossas referências intelectuais, as nossas atitudes como brasileiros e a esperança de encontrarmos políticos com esse caráter, erudição, sapiência e espírito humanitário, bem como cidadãos que admirem e valorizem tais qualidades em um homem público. Com bons políticos, que amam o país, e não apenas presos às conveniências políticas, aos interesses próprios e ao ego, e cidadãos críticos que não vendem sua consciência poderemos ter um Brasil realmente mais justo e mais livre. Vivam os Nabucos da vida e que eles se multipliquem por este vasto território!

(Wennes Mota)

AS VÍTIMAS ALGOZES, de Joaquim Manoel de Macedo

 




Em “As Vítimas Algozes”, Joaquim Manoel de Macedo condena a escravidão, mostrando seus efeitos maléficos para a sociedade.

A obra é dividida em três partes, três estórias diferentes, mas cada uma tendo personagens escravos como principais e sendo vitimas e ao mesmo tempo algozes, como é bem definido pelo título.

A escravidão é denunciada como uma atividade desumana e aviltante que produz, na maioria dos escravos, ódio e sede de vingança. Segundo o autor, não se pode esperar bondade e gratidão por parte do escravo, por mais que não seja tratado como violência, por mais que tenha patrões “bondosos”, o simples fato de ser escravo, de não ter direitos, de estar preso a trabalhos estafantes e não ter a dignidade de um cidadão, são raros os escravos que não se revoltam com sua condição degradante.

Ao longo da obra o autor deixa claro, e repete, como lição de moral, e ainda contendo cada uma conclusão bem explícita onde se condena a escravidão e a exposição dos motivos para tais condenações. Essa obra servia como alerta para mostrar para os senhores brancos e a sociedade os perigos que corriam por insistirem na escravidão. Libertar os escravos seria a melhor forma de se evitar grandes infortúnios e desastres como os que são narrados nesse romance bem escrito e de denúncia social. Leitura prazerosa e reflexiva. Personagens bem escritos, coerentes e convincentes. Prepare-se, você vai odiar Lucinda e vai sentir pena e ao mesmo tempo raiva de Cândida. Segue abaixo um resumo das três estórias do livro.

I – Simeão, o Crioulo

Simeão é um escravo que cresce sendo favorecido pelos seus senhores, Domingos Caetano e Angélica, criado e amado como um filho durante a infância. Isso porque, ao nascer Florinda, filha dos senhores, não podendo Angélica amamentá-la, conta com os peitos de uma escrava, que também tivera filho, Simeão, há pouco tempo, amamentando assim, os dois, que se tornam irmãos colaços (de leite). Poucos anos depois com a morte da escrava, os senhores passam a cuidar de Simeão como filho.

Mas quando Simeão chega à adolescência percebe-se como escravo. Por mais que tenha sido bem tratado pelos seus donos, continua sendo escravo. Muitos escravos jogavam isso em sua cara, aumentando-lhe a cólera.

Em uma venda perto a fazenda, onde se encontram escravos, ex-escravos e vadios, Simeão conhece um bandido, conhecido como Barbudo, e nasce entre eles uma amizade leal.

Florinda casa-se com Hermano, filho do lavrador vizinho. Com a morte de Domingos Caetano, tencionando ganhar a liberdade e roubar o dinheiro da família, Simeão arma uma emboscada em casa e, com a ajuda de Barbudo e outros capangas, matam todos da casa. A lição é: por mais que se trata bem um escravo ele pode se voltar contra os senhores, e estes não o podem acusar de ingrato, porque a escravidão em si é a culpada por produzir ódio e vingança.

 

II – Pai-Raiol, o Feiticeiro

Muitos escravos conheciam raízes, folhas e plantas alucinógenas e venenosas que, juntamente com rituais tribais, se aproveitavam desses conhecimentos para se declararem feiticeiros, como forma de amedrontar muitas pessoas e conquistarem um certo prestígio.

Pai-Raiol é um escravo feio, fisicamente deformado. Mostra-se inofensivo, calado e trabalhador, mas que provoca grandes estragos por onde passa. Ele e sua companheira, a crioula Esméria, a quem tem como amante por medo e conveniência, são comprados por Paulo Borges.

Pai-Raiol mata vários animais envenenados e chega a atear fogo na plantação e em todas essas ocasiões ele apresentava soluções que o tornavam valorizado aos olhos do seu senhor.

Esméria é convidada para trabalhar na cozinha a pedido de dona Teresa, esposa de Paulo Borges. O feiticeiro convence Esméria a seduzir o senhor, o que o faz e em pouco tempo toma o lugar da senhora, passando a tratar suas ex-companheiras escravas como inferiores.

Esméria, profundamente decepcionada, passa a viver apenas para os três filhos, passando o dia e a noite trancada em um cômodo para não ver o marido e escrava traiçoeira. O feiticeiro então convence Esméria a envenenar aos poucos a comida de Teresa, que e pouco tempo morre envenenada. Tempos depois, o envenenamento também leva os filhos para a morte e a ruina da família de Paulo Borges.

Pai-Raiol ordena a Esméria que mate o senhor também, mas esta, conhecendo os planos do feiticeiro, sabendo que ele queria comandar a fazenda ao seu lado, controla-la, decide contar com a ajuda do tio Alberto, um escravo alto e musculoso como Hércules, com quem Esméria també mante um romance ardente, para assassinar Pai-Raiol.

Esméria, ao maltratar uma criada, esta, vinga-se daquela revelando todas as suas maldades para o senhor Paulo Borges. Tomando conhecimento da emboscada que Esméria e o tio Alberto estavam preparando para matar o feiticeiro, Paulo Borges, com o auxílio da criada, assistem ao assassinato às escondidas. Por fim, ordena que capangas prendam Esméria. A lição de moral é: enquanto houver escravidão haverá escravas para se oferecer para o senhor e destruir o lar.

 

III – Lucinda, a Mucama

Florêncio da Silva é um rico comerciante, esposo de Leonídia e pai de Liberato e Cândida. Plácido Rodrigues é um rico fazendeiro, cujo filho, Frederico, fora amamentado por Leonídia, já que sua mãe havia morrido de parto. A amizade dos pais era unida ainda mais pelos laços quase familiares. Frederico e Liberato são os melhores amigos, estudaram juntos a vida inteira e cultivam uma amizade com amor fraterno. Frederico é irmão de leite de Cândida. As duas famílias são a favor da união entre os irmãos de leite.

Cândida, infelizmente, ganha de presente de seu padrinho, Plácido Rodrigues, Lucinda, uma mucama perversa que, com suas opiniões vis, maldosas e pérfidas opiniões, corrompe a pureza da pobre moça.

Lucinda incentiva Cândida a ter namorados antes do casamento, e a ajuda a ter um relacionamento escandaloso, as escondidas, com um francês, que no final se revela um sujeito criminoso e pobre.

Por sorte, a reputação de Cândida, que havia perdido a virgindade para o francês, só é salva por casa da bondade e do amor de Frederico, que a aceita como esposa. Lição de moral: uma mucama escrava pode arrastar para a lama a reputação de uma senhora-moça.

O NEGRO NO BRASIL

O Negro no Brasil (editora Objetiva, 166 páginas, 2012) é uma obra organizada por Carolina Vianna Dantas, Hebe Mattos e Martha Abreu que aborda a história, situação e luta dos negros ao longo da história brasileira.

 O livro se divide em duas partes, na primeira contendo dez textos de pesquisadores acadêmicos sobre o tema, em ordem histórica cronológica. A segunda parte compõe-se de dois textos,  ambos de Hebe Mattos e Martha Abreu. No primeiro, elas fazem uma análise sobre as Diretrizes para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. O segundo texto aborda a questão dos remanescentes das comunidades dos quilombos.

O livro é escrito de forma simples e fácil de ler, com várias sugestões de referência para se aprofundar nos temas. É marcado por uma perspectiva interessante e diferente ao trazer para o centro da discussão uma visão mais crítica em relação ao negro, sua contribuição e, sobretudo, informações acerca do que aconteceu com ele depois da abolição da escravatura. Como o negro vivia durante as primeiras décadas do período republicano? Quais foram suas lutas? Os negros foram heróis resistentes ou vítimas? São essas as perguntas que o livro procura responder, além de incentivar os leitores, professores e pesquisadores a conhecerem com mais detalhe a situação do negro, investigando melhor a história, que ainda apresenta muitas lacunas. 

RESUMO

O TRÁFICO DE ESCRAVOS E A ESCRAVIDÃO NEGRA NA AMÉRICA PORTUGUESA

O tráfico atlântico teve início no século XV e perdurou até meados do século XIX. Essa longa duração foi resultado dos seguintes fatores: poderio político e militar dos países europeus, interesses econômicos na escravidão no Novo Mundo, auxílio de algumas elites militares e econômicas africanas que ajudavam na tarefa da escravidão.

No século XVI, a colonização da América portuguesa foi totalmente dependente da escravidão indígena que, por diversas razões, foi se tornando impraticável, daí a necessidade de escravos africanos, que já dominavam a colônia no século XVII.

Na escravidão no Mundo Antigo, os escravos eram de etnias diferentes e tinham funções variadas, e geralmente seus filhos se tornavam livres. Na América, a escravidão baseou-se na questão racial, inferiorizando negros e índios e explorando-os em massa de forma desumana.

ESCRAVIDÃO E ALFORRIA NA AMÉRICA PORTUGUESA

Para Caio Prado Junior, a colonização portuguesa atendia aos interesses do capital mercantil europeu, a economia deveria ser orientada para a exportação de mercadoria, e para isso necessitava de muita mão de obra barata.

Alguns autores defendem a ideia de que a demanda da produção interna, não só a externa, também necessitava de mão de obra escrava.

Muitos autores defendem que a escravidão no Brasil não foi uniforme. Havia diferenças regionais. Muitos senhores permitiam que os escravos pudessem cultivar outros produtos agrícolas para sua própria subsistência.

O trabalho escravo também era difundido nas áreas urbanas. Muitos escravos ofereciam seus serviços para que os contratasse, e no final do dia, repartia os ganhos com seus senhores. Com a descoberta do ouro, houve um intenso aumento da presença de escravos na região sudeste, que trabalhavam agora em uma economia mais diversificada.

A população brasileira no final do período colonial era bem diversificada. Aproximadamente 38% de escravos, 28% de negros e mulatos livres, 28% de brancos e 6% indígenas. Os escravos que nasciam no Brasil eram chamados de crioulos.

Apesar da maior parte dos escravos terem pouca probabilidade de conseguir a liberdade, a alforria no Brasil era mais comum do que em outras regiões escravistas. O número de negros e mulatos livres cresceu bastante devido às alforrias. Os escravos que tinham mais chance de alforria eram os crioulos, pardos e as mulheres, cabendo aos africanos uma maior dificuldade.

QUILOMBOS E FUGAS

Os escravos nem foram heróis e nem vítimas o tempo todo, foi um pouco dos dois. De maneira geral, as fugas e os quilombos ocorriam com mais frequência quando os senhores retiravam dos escravos alguns benefícios e vantagens que eles já estavam acostumados, maus-tratos, fugas-reivindicatórias, que é uma espécie de greve em busca de melhores condições de vida e trabalho.

Vários quilombos surgiram. Alguns eram quilombos abolicionistas, auxiliados por civis e autoridades que eram contra a escravidão e que demonstrava que a instituição escravocrata estava em declínio, sendo questionada no Parlamento, nas senzalas, nas ruas, nos comícios.

FESTAS E IRMANDADES NEGRAS NO BRASIL

O conjunto de práticas, saberes e memórias religiosas também atravessou o Atlântico nos navios negreiros, e aqui foi revivido e modificado pelos africanos de acordo com as condições do cativeiro.

As irmandades eram associações religiosas que permitiam aos negros se reunir de modo relativamente autônomo em torno da devoção a um santo católico. Espalhadas por diversas áreas do Brasil escravista do século XVII, as irmandades eram locais onde se criavam laços de solidariedade e ajuda mútua entre seus integrantes. Homens e mulheres, libertos e cativos, africanos, crioulos e mestiços podiam ingressar numa irmandade com o pagamento de uma determinada quantia.

Alguns senhores viam com desconfiança as festas dos negros. Temiam que elas fossem o momento adequado para a organização de revoltas. Outros achavam as festas uma boa oportunidade para que os escravos pudessem ter seus momentos de lazer. A Congada foi uma das maiores festas de devoção negra do Império. A festa começava com a eleição do rei e da rainha que, após serem coroados, saiam pelas ruas realizando desfiles, cantos e danças dramáticas.

A FAMÍLIA ESCRAVA

A sociedade escravista era complexa, tinha suas dinâmicas e possibilidades. Existem poucos estudos sobre os casamentos e formação de famílias escravas. Nas cidades os índices de casamentos entre escravos era baixo.

 

ESCRAVIDÃO E CIDADANIA NO BRASIL

Quando o Brasil se tornou independente, possuía uma das maiores populações de escravas das Américas. Na constituição de 1824, reconhecia-se como cidadão os libertos que adquiriram sua liberdade por qualquer título legítimo. Todos os nascidos ou naturalizados brasileiros eram considerados cidadãos e tinha direitos civis iguais, embora os direitos políticos fossem limitados a quem tivesse propriedades e uma boa renda anual.

 

1888: ABOLIÇÃO E ABOLICIONISMOS

Alguns eventos que ocorriam no mundo, além de outros que ocorriam dentro do país, influenciaram a abolição: a expansão dos movimentos antiescravistas e antitráfico que aconteceram na Europa desde o final do século XVIII; as revoltas de escravos no Caribe e a mobilização pela abolição de escravos na Inglaterra e sua pressão para que o Brasil findasse o tráfico africano.

Em 1831, a Inglaterra suspendeu o tráfico escravo no Brasil, embora a suspensão tenha sido constantemente desobedecida.

O grande número de escravos e de jovens africanos recém-escravizados representavam um “perigo africano”. Temia-se que os escravos se revoltassem e ameaçasse a ordem.

Em 1871, foi aprovada a Lei do Ventre Livre, que previa a libertação dos filhos nascidos de mãe escrava. O que antes era uma generosidade atribuída ao senhor agora era um direito assegurado pelo Estado.

Em 1885, foi decretada a Lei dos Sexagenários, que libertava os escravos com mais de 60 anos.

A partir da década de 1880 aumentaram os movimentos abolicionistas, quando pessoas de diversas camadas sociais lutaram para que houvesse a libertação dos escravos. Clubes e associações abolicionistas foram fundadas em várias cidades. Muitas arrecadavam dinheiro para alforriar escravos. Entre as lideranças abolicionistas estavam Joaquim Nabuco e os negros Luis Gama, José do Patrocínio e André Rebouças.

Em fevereiro de 1888, vários arros alegóricos em prol da liberdade desfilaram no carnaval do Rio, sendo aplaudidos e apoiados pelos foliões.

 

MOBILIZAÇÃO NEGRA NAS PRIMEIRAS DÉCADAS REPUBLICANAS

As teorias raciais foram difundidas a partir da segunda metade do século XIX no Brasil, como forma de inferiorizar os negros e justificar as desigualdades sociais, através de supostos argumentos biológicos e tidos como científicos e legítimos. Essas teorias contaram com muitas adesões no Brasil entre 1870 e 1930, sobretudo entre intelectuais, políticos, juristas e médicos. Para eles, o Brasil tinha que embranquecer a população, pois a grande quantidade de negros poderia arruinar o futuro do país. Alguns intelectuais defenderam a mestiçagem como forma de diminuir o número de negros. Autoridades do governo incentivaram a entrada de trabalhadores europeus. Por outro lado, essas teorias raciais também foram criticadas por muitos intelectuais.

Muitas negros que ficaram excluídos da sociedade agruparam-se em cortiços, que eram vistos por muitos com preconceito.

A partir de 1920, mas sobretudo na década de 1930, cresceu a aceitação de que o Brasil era uma democracia racial, um pais miscigenado, um lugar pacífico de raças em harmonia, principalmente por causa da obra “Casa Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre. Entretanto, nos anos 1950, alguns estudiosos, como Florestan Fernandes, questionaram essas ideias, declarando o mito da democracia racial, pois as grandes desigualdades mostravam o preconceito e abandono em relação aos negros.

 

O MOVIMENTO NEGRO NO BRASIL REPUBLICANO

O movimento negro ganhou muita força na sociedade brasileira a partir da década de 1970, que reivindicava a reavaliação do papel do negro na história do Brasil.

 

DIVERSIDADE CULTURAL REPARAÇÃO E DIREITOS

As reivindicações conquistaram direitos de reparação e direitos de memória, ou seja, valorização da cultura e história afro-brasileira e africana.

Em 1951, a Lei Afonso Arinos tornou o preconceito racial contravenção penal. A Constituição Federal reconheceu e procurou incentivar a valorização da diversidade étnica e cultural brasileira para fortalecer a democracia.

Os PCN`s, em 1996, reconheciam a pluralidade cultural como patrimônio. Em 2003, foi estabelecida as Diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana.

 

 

 

O Livro da Sua Vida, Osho




Em “O Livro da Sua Vida” (editora Cultrix, 230 páginas), Osho faz severas críticas às religiões organizadas, como o Cristianismo, Hinduísmo, Islamismo, Budismo, etc, e incentiva o ser humano a cultivar uma religião própria, fruto de um mergulho em seu interior, reforçado pela consciência e meditação, como forma de se libertar de dogmas que limitam a vida. 

No prefácio o autor defende uma nova espiritualidade, baseada na rebelião individual, ao invés de uma revolução política, porque na primeira você muda a si mesmo para mudar o mundo, e a segunda, que é produzida pela sociedade, apenas dita regras para grupos sociais, mas não mudam o ser humano individualmente. Para ele, Jesus, Buda, Gandhi e Zaratuatra são exemplos de rebeldes. 
Cada capítulo do livro aborda os assuntos em forma de dicotomias: 

MUNDANO VERSUS EXTRAMUNDANO 
O Ocidente conheceu um progresso científico que tem ofuscado a religião, ao passo que o Oriente tem se mantido preso às religiões. O materialismo ocidental provocou uma crise espiritual no homem, e a religião no Oriente impede o crescimento do ser humano rumo à libertação dos dogmas. Osho propõe uma solução: que o homem seja “Zorba, o Buda”. O que isso significa? Zorba foi um grego devotado ao sensual, ao material, mundano. Buda negou este mundo material para se aprofundar espiritualmente, abandonando sua fortuna e partindo para uma jornada de simplicidade e limitações materiais. Osho defende que sejamos os dois ao mesmo tempo: aproveitar os prazeres da Terra e cuidar do lado espiritual, acabar com a divisão entre matéria e espírito. 

Para o autor, a religião passa por muitas fases. A primeira fase é a mágica, baseada em rituais mágicos de sacrifício para os deuses, como fazem os aborígenes primitivos. A segunda fase é a pseudo-religião: Hinduísmo, Cristianismo - elas mudam você através de dogmas, não é um ritual, é uma filosofia de vida. A repressão é usada como forma de controle, de escravização. O ser humano se divide entre bem e mal, proibido e permitido, condenam o sexo, a arte etc. A última é a religião científica, a verdadeira, que busca libertar o indivíduo.

Quando a pobreza exterior encontra a pobreza interior há um falso contentamento. Quando a riqueza exterior encontra riqueza interior há harmonia. Muitas religiões impõem uma vida de sacrifícios, de limitações, exaltam a pobreza como forma de o ser humano ser  recompensado na outra vida

CRENÇA VERSUS EXPERIÊNCIA 
A ciência explora o mundo objetivo e a religião explora o mundo subjetivo. Todas as religiões são contra a dúvida, porque a dúvida faz perguntas e busca respostas, e isso destrói as religiões, pois são baseadas em crenças. A verdadeira religião não exige fé, exige vivência. A fé é o suicídio da inteligência.  O autor critica os condicionamentos que a sociedade impõe as crianças. 

LÍDER VERSUS SEGUIDOR
Os líderes religiosos têm poder sobre os homens porque representam Deus. Eliminando Deus e as religiões os homens passam a ser livres. Mas ao eliminá-los, fica um vazio, e esse vazio deve ser preenchido com a verdadeira religião, usando o consciente e a meditação. Há muita hipocrisia entre religiosos. Muitos se apegam à religião para serem bem vistos diante da sociedade, serem aceitos por uma grande comunidade. 

CONSCIÊNCIA VERSUS VOZ DA CONSCIÊNCIA 
A voz da consciência é uma fotografia, e a consciência é um espelho que sempre muda o que reflete. A voz da consciência é o que a sociedade impõe, a consciência vem de dentro de você. A voz da consciência divide, a consciência une. A meditação é uma maneira de descartar a voz da consciência e mergulhar na consciência. A religião divide o homem para amedrontá-lo e escravizá-lo. 
Osho fala sobre a diferença entre controle e disciplina. O primeiro é imposto pela força, leis, dogmas, a disciplina é fruto de um interior consciente, organizado. Devemos produzir respostas ao invés de reação, porque a reação é condicionada, mecânica, e a resposta é sempre espontânea e muda de contexto. 

SIGNIFICADO E SIGNIFICÂNCIA 
 A vida não tem significado, a pessoa tem de criá-lo. As religiões dão um significado à vida e isso conforma o homem. Mas ao abandonar a crença, para não ficar desesperado, o homem precisa buscar um sentido, uma confiança que só seu interior consciente pode fornecer. 
Grandes intelectuais como Feuerbach, Nietzsche, Marx e outros combateram as religiões, mas eles não se aprofundaram interiormente, vivendo, desse modo, em desespero.

MINHA OPINIÃO 
Gostei de algumas críticas que ele faz sobre as religiões, sobre a hipocrisia de muitos religiosos, sobre os condicionamentos que nos aprisionam. Tenho buscado uma espiritualidade interior que eu possa conciliar com meu lado cristão, uma forma de eu manter minha fé mas ao mesmo tempo buscar viver uma vida que me permita ter dúvidas, buscar respostas, não me limitar a certos dogmas. O livro me despertou mais interesse ainda na busca do meu lado interior, em uma espiritualidade consciente e natural. Discordo de muitos pontos do autor ao longo da obra. Em alguns momentos demonstra conhecimento superficial, redundante em alguns trechos e muitas generalizações que empobrecem certas explicações. Usarei algumas dicas para melhorar minha espiritualidade mas de forma a se harmonizar com meu lado cristão. O autor provoca reflexões, mas não me convenceu a abandonar minha religião.
(Wennes Mota)

O BANQUETE, de Platão

 


 


Escrito em forma de diálogos, narra um banquete realizado na casa de Agatão, tendo como convidados Fedro, Pausânias, Erixímaco, Aristófanes, Sócrates e Alcebíades. Todos discursam sobre o Amor. Os discursos deles, contrariando o que eu estava esperando, é fortemente influenciado pela religião – mitologia grega, além de referência de grandes nomes, como Homero.

A narrativa começa com Apolodoro caminhando em direção à cidade, quando é interrompido por um companheiro, que lhe pergunta sobre os discursos que foram proferidos no banquete de Agatão, ao que Apolodoro responde dizendo que o banquete fora realizado há muito tempo, e que ficara sabendo dos detalhes através de Aristodemo, que fora ao banquete acompanhado de Sócrates. Segue abaixo um resumo dos discursos de cada um sobre o Amor.

Fedro – O amor é um grande deus, admirado entre os homens e os deuses e, sendo o mais antigo dentre eles, é a causa dos maiores bens. Sem o amor, que implica vergonha do que é feio e apreço do que é belo, não é possível à cidade e nem ao indivíduo produzir grandes e belas obras. “(...) ninguém há tão ruim que o próprio Amor não o torne inspirado para a virtude, a ponto de ficar ele semelhante ao mais generoso de natureza”.

Pausânias – defende que há dois amores por haver duas deusas: Urânia, a celestial e Pandêmia, a popular. Toda ação em si não é bela e nem feia, o que a torna uma ou outra coisa é a prática, dessa forma, o amar e o amor só são belos quando praticados. Os homens vulgares amam o amor de Afrodite Pandêmia, que amam mais o corpo do que a alma, tudo em vista apenas efetuar o ato, não importando se é decente ou não. Em sua geração participa o macho e a fêmea. No amor de Urânia, participa apenas o macho – o amor aos jovens. Urânia é mais velha e isenta de violência. Os que se dedicam a esse amor apreciam o que é másculo, afeiçoando-se à natureza do mais forte e mais inteligente. Amam o jovem no sentido de educá-lo, e não ludibriá-lo em sua inocência, usando-o para depois ir em busca de outro. Esse amor pelo jovem não é em si nem belo e nem feio; se decentemente praticado, é belo, se indecente, feio. É feio deixar-se conquistar, sem o devido tempo, já que é prova de amor, bem como o deixar-se conquistar pelo dinheiro  e pelo prestígio político, pois são constantes e não produzem amizades nobres. O aquiescer o amado ao amante é belo quando o objetivo é a contribuição para a sabedoria e demais virtudes.

Erixímaco – elogia o discurso de Pausânias, mas declara que faltou um remate, o que se propõe a fazer. Como prático em medicina, ele estende o amor não apenas aos homens, mas a todos os seres vivos. Defende o amor como sendo duplo: um sadio e um mórbido. Deve-se combinar os dois em todas as artes para conservar o amor. O amor com sabedoria e justiça nos traz felicidade e amizade.

Aristófanes – concorda com Erixímaco e Pausânias sobre ser o Amor o deus mais antigo, mas diferentemente dos dois, defende a existência de três gêneros da natureza humana, ao invés de dois: o masculino, o feminino e o andrógino. Antigamente o ser humano era andrógino, possuindo quatro braços, quatro mãos, quatro pernas, duas cabeças. Voltando-se eles contra os deuses, Zeus os pune dividindo os andróginos para enfraquecê-los, cada um agora andando sobre duas pernas. Coube a Apolo fazer as reparações depois das mutilações que dividiram os corpos. Divididos, homens e mulheres tentavam se unir novamente e acabavam morrendo. Zeus então lhes dão sexos para que possam procriar e se unirem. O amor é o restaurador de nossa antiga natureza em sua tentativa de fazer um só de dois e de se curar a natureza humana. Nossa antiga natureza era formada por um só, éramos um todo, o amor é o desejo e a procura do todo. Seríamos uma raça mais feliz se voltássemos para nossa antiga natureza.

Agatão – diz que os discursos anteriores procuraram elogiar os homens pelos bens advindos do deus, e não a ele, então decide discorrer sobre sua natureza. O Amor é o deus mais feliz e mais belo. Discorda de Fedro que o Amor seja o deus mais antigo, ao contrário, considera-o o mais jovem, pois o amor está na juventude. É um poeta e sábio. Todos os deuses buscam no amor suas realizações, por ele são guiados. Antes dele havia desentendimento entre os deuses, de pois dele belas coisas surgiram para deuses e os homens.

Sócrates – Ao contrário de todos os outros anteriores, Sócrates não apenas discursa, ele utiliza a ironia e a maiêutica para interrogar Agatão e chegarem a um conhecimento novo. Ao interrogá-lo, Agatão reconhece que pouco sabe sobre o assunto. Sócrates, antes, pensava como o amigo, mas declara que fora convencido por uma mulher chamada Diotima, a quem atribui um grande conhecimento sobre o amor. A partir daí cita o discurso de Diotima. Defende a ideia de que o Amor não é um deus, pois não sendo belo e nem bom, não se encontra nos extremos, mas sim no centro. É ao mesmo tempo mortal e imortal, um grande gênio, porque fica entre um deus e um mortal. O Amor é filho da Pobreza e do Recurso, que dormiram juntos no dia do nascimento de Afrodite. O amor é filósofo, está entre sábio e ignorante, pois é filho de pai rico e sábio e mãe não sábia e pobre. Quem ama quer ter o bem sempre consigo.

Por último, Alcebíades entra embriagado e discursa elogiando Sócrates, alegando que, apesar de tentar ser amante do grande filósofo no sentido de obter instrução, sua juventude e beleza nunca fizeram Sócrates se entregar a ele, pois Sócrates nunca se deixou levar pelo corpo e pelo dinheiro.

Como se pode observar, a obra é fortemente ligada à religião. Considero alguns pontos interessantes, mas na maior parte achei os discursos limitados à mitologia. De qualquer forma, não superando minhas expectativas, é um livro que retrata os conhecimentos e crenças da época em que foi escrito.

(Wennes Mota)

 

O SOFISTA, de Platão




Escrito em forma de diálogos entre Teodoro, Sócrates, um Estrangeiro e Teeteto,  a obra procura responder a uma pergunta: o que é o sofista? Para isso, o personagem Platão utiliza a dialética, o método filosófico que ficou conhecido com as produções de Platão, que é uma troca de ideias, de forma hierarquizada, produzindo contradições, com o intuito de, através da razão, superar o conhecimento irracional.

O personagem Teodoro apresenta o Estrangeiro a Sócrates, que pede ao Estrangeiro que escolha alguém para debater o assunto. O escolhido é Teeteto. Sócrates quer saber como denominam sofista, político e filósofo na terra do Estrangeiro, se são classificados em um só grupo ou em dois, ou um gênero para cada.

O Estrangeiro propõe a Teeteto discutirem acerca do sofista. Orienta o interlocutor dizendo que, por se tratar de um tema difícil, comecem com temas menores e mais fáceis para chegarem aos mais difíceis. Para tal, escolhe o pescador como ponto de partida: o pescador é um artista ou um sujeito carecente de arte?

Ao mencionar a arte, procura reduzi-la a duas espécies: agricultura e imitação.  Depois, subdivide a arte em produtivas e aquisitiva; a aquisitiva, por sua vez,  em troca e arte da captura; esta última em luta e caça. A caça é classificada em duas: caça a objetos sem vida e caça aos seres animados (animais). A caça aos animais se subdivide em: animais que andam na terra (marchadores) e nadadores. A caça pode ser realizada por meio de cercados (cercar os animais com alguma coisa que os impeça de fugir) e golpeamento da vítima.

Nessa primeira etapa usando um método de divisões, oposições, o Estrangeiro, guiando Teeteto, tenta classificar o sofista. A conclusão que chega nesse momento é que o pescador e o sofista são ambos da arte aquisitiva; o primeiro busca na água, o segundo, na terra.

Prossegue-se a discussão acerca da caça aos marchantes, que se subdividem em domesticados e selvagens. Acrescenta ainda uma outra divisão para a caça: uma, violenta, e a outra, a arte da persuasão. A arte da persuasão também tem sua divisão: caça particular e caça pública. A caça particular se dá mediante o pagamento metade com salário e metade com presentes. Nesse momento, chaga-se a mais uma conclusão a respeito do sofista: faz parte da aquisição do negócio de mercadorias da alma relativo aos discursos, aos conhecimentos e à virtude política, vendendo esses conhecimentos por ele mesmo fabricados ou comprados.

Em relação à luta, o Estrangeiro defende que ocorre de forma violenta (corpo a corpo) ou entrechoque de discursos (controvérsia). A controvérsia se subdivide em forense (jurídica) ou contenda.

O Estrangeiro prossegue com o modelo de oposições investigando a arte de separar, purificar (corpo e alma), espécies de maldade, tipo de ignorância. Nesse ponto apresenta artes adequadas para o aprimoramento da alma (instrução) e para o corpo (ginástica para a fealdade, e medicina para a doença). Outras oposições investigadas são mimética (arte de copiar e imitativa), arte criadora (divina e humana), arte dos simulacros, arte da mímica.

Até aqui, conclui-se que o sofista possui um conhecimento aparente sobre todos os assuntos, não o verdadeiro conhecimento. Compara o sofista a um ilusionista, imitador das realidades e inclinados a acreditar que possui o conhecimento verdadeiro, quando na verdade é apenas um imitador ilusionista.

A parte confusa e cansativa dos diálogos se dá na altura da metade da obra, nas discussões sobre o que é o ser e o não-ser, o uno e o todo.

Procura ainda explicar o discurso, opinião, pensamento e imaginação para indicar a falsidade. Aqui tenta enquadrar o sofista no grupo daqueles que imitam, e não dos que realmente pensam.

Na parte final da obra, o Estrangeiro resume tudo para chegar à conclusão sobre o sofista:

“Sendo assim, a espécie imitativa e suscitadora de contradições da parte dissimuladora da arte baseada na opinião, pertencente ao gênero imaginário que se prende à arte ilusória da produção de imagens, criação humana, não divina, desse malabarismo ilusório com palavras: quem afirmar que é de semelhante sangue e dessa estirpe que provém o verdadeiro sofista, só dirá, como parece, a pura verdade”.

Percebe-se que a obra procura desqualificar o sofista, que vende seus conhecimentos como se fossem verdadeiros. É interessante ver na prática a dialética sendo aplicada. O livro é curto, mas exige atenção, raciocínio e paciência. Não é uma leitura tão prazerosa, mas de análise e exploração dos conhecimentos. Podemos adaptar até certo ponto a dialética para os nossos discursos a fim de conhecermos melhor a nós mesmos, os outros e o mundo.

 

AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA



Um livro que deveria ser lido por todos os latino americanos para que possam entender melhor a dimensão da exploração negativa e desumana à qual fomos submetidos durante séculos e que ainda hoje sentimos os efeitos de toda essa dominação perversa.

Trata-se de uma obra crítica e reveladora, que procura mostrar detalhes que a História não mostra. Abre os nossos olhos em reação às causas do nosso subdesenvolvimento, abrindo espaço para reflexões que nos levem a buscar novos caminhos, evitando os erros do passado.

O livro divide-se em duas partes: a primeira, “a pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra”, aborda a exploração das riquezas das nossas terras, produção agrícola (principalmente açúcar, algodão, café), e de minérios e pedras preciosas, às custas do trabalho escravo dos índios e negros trazidos da África. Portugal, no Brasil, e Espanha, no resto da América Latina, implantaram a monocultura e o latifúndio com o objetivo único de explorar essas vastas terras apenas para a exportação. Nascemos como exportadores de matérias-primas e nos impuseram a impossibilidade de ter um mercado interno e uma manufatura nacional. A Inglaterra logo tomou de conta desta vasta região, pois Espanha e Portugal lhes eram submissas. O ouro e a prata extraídos do Brasil, bem como os lucros com os produtos agrícolas financiaram a revolução industrial da Inglaterra que, a partir de então, liberou os portos da América Latina para implantar o livre-comércio, uma forma de vender seus produtos industrializados de forma desigual, trazendo prejuízos para a região explorada e evitando o nascimento de nossas indústrias. Interessante notar que a abolição da escravidão foi incentivada pela Inglaterra apenas por interesses próprios, pois precisava-se de trabalho assalariado para comprar seus produtos. O autor, Eduardo Galeano, ressalta que a nossa riqueza foi a nossa maldição, pois cada ciclo de prosperidade econômica, assim que se esvaia, deixava um rastro de pobreza. Assim aconteceu com o açúcar no Nordeste, que era a região mais rica e hoje é a mais pobre. Com a descoberta do ouro e diamante em Minas Gerais, a capital passa de Salvador para o Rio de Janeiro. Depois do ouro veio o café. Outros exemplos são as explorações de prata em Potosí que, em sua era de prosperidade, havia luxo, e depois que a mina secou, veio a desgraça e o abandono.

A segunda parte trata da dominação da América Latina, primeiro pela Inglaterra no âmbito da Revolução Industrial, e depois dos Estados Unidos, com suas multinacionais. Os países latino-americanos continuaram a ser meros exportadores de matérias-primas e importadores de produtos industrializados, de forma que nossos produtos eram baratos e os deles, caros. As estradas e ferrovias aqui construídas pela Inglaterra e Estados Unidos não foram feitas com a intenção de ligar as regiões, povoá-las e desenvolvê-las. A intenção era apenas facilitar o acesso das fontes das matérias-primas até os portos. O livre comércio foi um negócio negativo que favoreceu ainda mais nossa dependência. O livro também mostra a forma como os Estados Unidos nasceram e se desenvolveram, diferente a América Latina, onde era proibido adotar o protecionismo, sendo o mesmo usado pelos Estados Unidos.

Quando os Estados Unidos perceberam o potencial de nossas industrias crescerem, invadiram nossos países com suas multinacionais, derrubando as concorrentes locais. Com as multinacionais vieram os bancos estrangeiros para financiamentos dos quais o país ficaria cada vez mais dependente da economia americana. O latifúndio empurrou muitos cidadãos para as cidades em busca de emprego na indústria. Resultado: cidades cresceram de forma desordenada, multiplicando a pobreza.

Os Estados Unidos apoiaram e até financiaram a chegada de ditadores ao poder nos países latino-americanos como forma de evitar que governos nacionalistas promovessem reforma agrária e dessem concretude a projetos de desenvolvimento nacional que não satisfaziam seus interesses imperialistas. A ditadura no Brasil, por exemplo, elevou nossa dívida externa, facilitou a entrada de grandes empresas norte-americanas, privatizações, o que nos mantinham reféns das mãos dos grandes capitalistas do norte.

As Veias Abertas da América Latina é um livro útil, reflexivo, esclarecedor, mas que deve ser lido com cuidado. É fácil sentir revolta com tudo que nos foi imposto ao longo de séculos de exploração, mas não podemos olhar com ódio as nações que nos exploraram,  (e que, com menos intensidade, ainda nos exploram), porque qualquer nação que estivesse no lugar de grandes impérios capitalistas como a Inglaterra e Estados Unidos, fariam o mesmo. Infelizmente, são obras do capitalismo que, embora seja o melhor sistema de organização econômica, também tem seus defeitos, mas que nas mãos de pessoas altamente ambiciosas, egoístas e maldosas, torna-se uma arma de extermínio. Deve ler As Veias para conhecer melhor as raízes do nosso subdesenvolvimento, conhecer detalhes das atrocidades e buscar caminhos diferentes para o nosso tão sonhado desenvolvimento. Precisamos estacar a sangria.

 

O livro traz detalhes tristes e revoltantes das formas com as quais os indígenas foram expulsos, escravizados, explorados, maltratados, assassinados.

 

APOLOGIA DE SÓCRATES, de Platão



A obra aborda o julgamento, sua defesa e consequente condenação à morte. É dividida em três partes.

 Na primeira, Sócrates procura se defender das acusações de corromper a juventude e de adorar outros deuses diferentes dos da pátria. O filósofo, de forma eloquente, interroga Meleto, um dos seus acusadores e, de forma brilhante, demonstra que as acusações que recaem sobre si são infundadas. Com suas intermináveis perguntas acaba demonstrando as contradições de Meleto.

Sócrates em suas buscas e análises procura saber se algumas pessoas são realmente sábias como dizem e acaba descobrindo que elas não o são. Ele chega a se considerar superior porque alega que nada sabe, por isso é sábio, pois não finge saber como os outros. Defende a ideia de que presta um grande serviço à sua pátria ao demonstrar a verdade para as pessoas, fazê-las enxergar o que não sabem.

Na segunda parte, ao ter conhecimento dos votos que o condenam, ele declara que prefere a morte a ter que renunciar sua filosofia. Alega que merece ser alimentado no Pritaneu, edifício que recebia vitoriosos, vencedores dos jogos olímpicos, etc, pois seus serviços gratuitos e educativos são mais importantes do que aqueles que são bem recebidos no importante local.

 Na terceira e última parte, ele aceita a morte, mas deixa claro que a pena foi injusta e que consequências negativas recairiam sobre aqueles que o haviam condenado. Faz uma defesa da morte, dizendo que não é ruim como as pessoas pensam, pois pode ser um eterno sono, sem sonhos e sensações, um eterno descanso ou então a migração, mudança da alma deste lugar para outro. Nesse último caso, ele diz que se encontraria verdadeiros juízes justos, além de grandes personalidades como Homero.

O livro é curto, leitura fácil, podendo ser lido em um dia ou dois, no máximo. Percebe-se, pela força de seus argumentos, a ironia e a maiêutica, o brilhantismo de seu sistema filosófico. Um sábio de verdade.

A parte que considero controversa é o apelo de Sócrates à religião, ao sobrenatural, pois declara que ouve vozes que o impedem de fazer algo que seja considerado ruim. Ele disse que aceitou a condenação à morte de bom grado porque não ouve um sinal divino que dissesse o contrário, como se fosse da vontade de deus que morresse por uma causa, para mostrar a verdade.

 


SEXO, DESVIO E DANAÇÃO: As minorias na Idade Média, de Jeffrey Richards

 

 
O livro é dividido em oito capítulos, o primeiro dedicado ao contexto medieval, o segundo abordando o sexo na Idade Média e os demais, cada um, analisando as minorias de acordo com a visão preconceituosa, intolerante, violenta e religiosa da Idade Média.

A Idade Média foi um período tenebroso da história da humanidade. As pessoas temiam o fim do mundo, principalmente a passagem do milênio e o ano de 1033, porque era exatamente mil anos da morte de Jesus Cristo. Pobreza, períodos de fome, doenças, guerras, Peste Negra. Diante disso as pessoas se apegavam ainda mais à religião porque desejavam a salvação. Com muita frequência as minorias eram escolhidas como os bodes expiatórios das desgraças que aconteciam, pois acreditavam que eram punições de Deus pelos pecados.

SEXO NA IDADE MÉDIA

De uma forma ou de outra, as minorias abordadas no livro estiveram ligadas de uma forma ou de outra ao sexo. O sexo na Idade Média era difundido com a visão da Igreja Católica de que sua função era apenas para procriação, no casamento. Sexo por prazer era pecado. Até as posições sexuais eram ditadas pela Igreja: o homem por cima da mulher frente a frente (a mulher não podia ficar por cima porque era submissa ao homem). Era proibido o sexo oral, anal, por trás (visto como bestialidade), bem como a masturbação. A Igreja associava o sexo ilícito ao Demônio. Ela possuía suas punições para os transgressores:

HEREGES

Com a crescente riqueza, politização, burocracia, dogmas, a Igreja foi se afastando da essência do Cristianismo, e por causa disso muitas pessoas passaram a buscar a Deus de uma forma mais fiel às escrituras sagradas. Todos aqueles que não reconhecessem a hierarquia da Igreja Católica eram considerados inimigos do cristianismo, e portanto, seguidores do diabo.

Os valdenses e os cátaros, além de outros, condenavam os luxos e excessos dos líderes da Igreja e passaram a imitar Jesus Cristo no modo de evangelizar e viver de forma simples, buscando a pobreza e a mendicância. Como não pregavam com a permissão da Igreja, foram perseguidos e torturados. Os frades franciscanos e dominicanos foram as armas da Igreja no combate aos hereges, pois os frades eram exemplos de castidade, pobreza, simplicidade e evangelismo. Foram importantes para a manutenção e expansão da Igreja. Os hereges eram acusados de satanismo, hipocrisia e irregularidades sexuais.

BRUXOS

Na Idade Média era comum acreditar em magia. Adivinhos e curandeiros eram vistos como bruxos. Os bruxos eram associados ao diabo. Muitos foram perseguidos e queimados.

JUDEUS

Muitas autoridades eclesiásticas e seculares condenavam a perseguição dos judeus, mas sempre que havia Cruzadas, muitos se aproveitavam para ataca-los. Os judeus ajudaram a propagar a palavra de Deus, mas não aceitavam Jesus Cristo, portanto, eram vistos como inimigos pela Igreja, que tentava convertê-los, e quando não conseguia, frequentemente os perseguia.

Vários papas protegiam os judeus. Eram contra o batismo forçado, a violência, os ataques a eles. Mesmo assim, várias restrições legais eram impostas a eles. Como eram grandes comerciantes, os judeus eram protegidos por muitas autoridades. Emprestavam dinheiro e ajudavam o crescimento das cidades. Foram acusados de satanismo e que do seu povo sairia o anticristo. Foram perseguidos, torturados, queimados.

A partir do século XII foram acusados de assassinarem crianças, o que levou a explosões de violência e assassinatos, uma verdadeira histeria antijudaica. Eles eram identificados e isolados, deveriam viver em bairros separados, vestir roupas e símbolos específicos.

PROSTITUTAS

Os principais clientes eram os jovens e não-casados. Não importa o que a Igreja pudesse dizer sobreo sexo, havia uma certa tolerância social generalizada da atividade sexual masculina pré-marital e extraconjugal. Era uma forma de afirmar a masculinidade do jovem, aliviando suas necessidades sexuais, impedindo que se aproximassem de moças e mulheres casadas, evitando estupros e desencorajando-o contra práticas homossexuais. O crescimento das cidades ampliou o número de prostitutas. Eram vistas com preconceito, eram separadas da sociedade, mas tinham sua função social. Várias vezes foram expulsas das cidades, permitindo suas atividades fora da sociedade, mas também muitos bordeis foram regulamentados e tributados. A municipalização de bordeis visava a taxação, manutenção da ordem pública, segregação das prostitutas, para satisfazer as necessidades sexuais dos homens e jovens não casados, além de combater estupros e atividades homossexuais

HOMOSSEXUAIS

A atividade homossexual era mais predominante nas cidades. Era vista como um impulso demoníaco. Grupos mais inclinados à homossexualidade: nobreza, estudantes e clero. Nos séculos XII e XIII os homossexuais começarem a ser tratados como um problema sério, pois ameaçava o casamento sacralizado pela Igreja. Tanto a Igreja quanto as autoridades seculares passaram a ser mais rigorosos contra os homossexuais. Muitos homossexuais foram acusados de bruxaria e heresia.

LEPROSOS

Os leprosos eram segregados em parte porque as pessoas já tinham noções de contaminação. Os leprosos deveriam usar um sinal, guizo ou sino para denunciar sua aproximação. Igrejas e autoridades seculares tomavam medidas para assegurar assistência e reclusão para os leprosos. Vários regulamentos proibiam a entrada deles nas cidades. Foram acusados de envenenar poços, fontes e rios na França. Muitas provas eram forjadas contra eles. Embora a Igreja incentivasse a compaixão, os leprosos eram vistos geralmente como bodes expiatórios. A partir do século XIV há uma diminuição no número de leprosos. Entre os fatores de declínio pode-se explicar pela morte dos mais miseráveis pela Peste Negra, aumento do número de hospitais e cuidados no combate à Peste.

 


RESENHA: ENTRE A ESQUERDA E A DIREITA: Uma Reflexão Política


 O livro é simples, sintético, conciso, reflexivo. Dividido em sete capítulos. Cada capítulo é introduzido por uma pergunta do autor, Rafael Arrais, e respondidas por dois entrevistados com opiniões diferentes, são eles: Alfredo Carvalho, engenheiro civil e servidor público federal, defensor da Direita. Da outra parte temos Igor Teo, autor de dois livros e defensor da linha Esquerda. O livro finaliza com comentários do autor sobre os assuntos abordados.  Farei uma síntese de cada um em relação a cada capítulo. 

Capítulo 1: O que são, afinal, a Direita e a Esquerda?

Teo menciona instituições e faz a distinção entre o instituído, quando uma determinada ideia está bem consolidada, amplamente aceita e executada e o instituinte, quando uma nova ideia deseja substituir a anterior. Ao assumir o lugar principal na sociedade, a burguesia instituiu o capitalismo, e a Direita defende essa ordem capitalista instituída, ao passo que a Esquerda procura combatê-la  ou pelo menos, usá-la para diminuir as desigualdades sociais. Dessa forma, ser de Direita é defender o capitalismo e suas instituições. Ser de esquerda é perceber os direitos dos trabalhadores, dos negros, das mulheres, dos homossexuais, dos pobres. Ter um olhar mais humano em relação às minorias. É perceber que as promessas do capitalismo são falsas porque elas trazem consigo lucro para poucos, enquanto exploram a maioria da população, segrega pessoas. As desigualdades promovidas pelo capitalismo aumentam a violência e criminalidade, cria favorecidos e por outra lado segregados. 

Para Carvalho,a divisão de esquerda e direita remonta na organização dos grupos na Assembléia dos Estados Gerais, que distingue dois movimentos políticos: conservadores e revolucionários. Segundo ele, as ideologias conservadoras são aquelas que se legitimam com base na experiência do passado, enquanto as revolucionárias o fazem em nomes das perspectivas de futuro. 

Carvalho critica a esquerda no sentido de que ela se apoia em ideologias revolucionárias que prometem um futuro de igualdade, ideias abstratas, utópicas, e os grupos desfavorecidos se sentem tentados a buscarem esses ideias que na prática a história tem mostrado que não funcionam. 


Capitulo 2: Como Trazer as ideologias de Volta à Politica? 

Carvalho condena a interferência do Estado na economia no sentido de favorecer algumas grandes empresas pois isso acaba criando um vínculo mutuo entre ambas em um projeto de desenvolvimento forçado. Menciona como uma das saídas para o problema o fim do financiamento privado, pois esse cria laços entre mercado e governo, colocando bem maior como segundo plano. Além disso, defende a reforma política. 

Teo fala de ideologia e assim como Carvalho, defende o fim do financiamento privado, bem como limitar o financiamento público das campanhas, maior fiscalização, direitos iguais para todos os partidos. 


Capítulo 3: Qual é a melhor reforma fiscal? 

Carvalho sugere descentralização, eficiência e paciência. Já que não se pode diminuir os impostos e tributações, que pelo menos simplifique as leis e a organização para que fique mais fácil de as empresas lidarem com a burocracia. 

Teo faz uma análise das nossas desigualdades, mostrando que os 1% mais ricos do país detêm mais da metade das riquezas do país. Defende a importância do Estado como defensor dos explorados e mais vulneráveis frente ao capital selvagem. Sugere maior tributação dos mais ricos para distribuir melhor a renda. 


Capitulo 4: Como blindar a democracia dos projetos de poder? 

Cavalho critica o apelo aos conceitos abstratos e utópicos em detrimento dos práticos. Muitas ideias revolucionárias podem trazer instabilidades e uma dificuldade ou impossibilidade de colocar em prática ideias abstratas, o que pode acabar levando determinado governo ao autoritarismo e o totalitarismo. Defende o conservadorismo para frear receitas fáceis e ilusórias que podem levar lunáticos ao poder. 

Teo critica a democracia liberal que se mostra a salvadora, usa promessas ideológicas de felicidade através do capital e do consumo, mas que promovem desigualdades sociais, mortalidade, miséria. As pessoas são vistas pelo que possui. Se você não faz parte do ideal de felicidade consumista, se não tem como participar, é descartado. 


Capítulo 5: É viável tornar o capitalismo sustentável? 

Carvalho reconhece falhas no capitalismo, contradições internas que comprometem o ordem moral e institucional, porém o defende como a melhor opção capaz de gerar prosperidade econômica e social. Acredita que seja viável um capitalismo sustentável, alegando que quanto maior o progresso, mais recursos e tecnologias há para proteger o meio ambiente e cita exemplos concretos de países ricos onde o capitalismo protege o meio ambiente. O capitalismo cria soluções para muitos problemas, mas é apenas consumismo. 

Teo acusa o capitalismo de acumulação, de produzir desigualdades, consumismo e exploração dos recursos humanos e naturais. Segundo ele, tentar tornar o capitalismo sustentável leva-o ao fracasso. O capitalismo vende a promessa de felicidade. Porém, quando se consegue comprar o produto desejado, a falta permanece. Compramos um produto por um imaginário de felicidade nele embutido. Isso pode causar problemas  emocionais em muitos, porque pode levar a vícios, e quem não tem dinheiro para comprar se sente fracassado, impotente. Teo não acredita na sustentabilidade do capitalismo, alegando que se trata apenas de uma máscara para conquistar o consumidor de que os produtos ajudam o meio ambiente e promovem responsabilidade social. 


Capítulo 7: A quem interessa a polarização entre PT e PSDB? 

Teo diz que o PT e o PSDB são partido mais de centro, com o primeiro pendendo para a esquerda e o segundo para a direita.  Declara que o PT trouxe várias conquistas, mas que, para implantar suas políticas sociais,  aliou-se aos inimigos, se vendeu ao instituído. Alega que o PMDB é um partido que age de acordo com as conveniências para estar junto ao poder.  Defende uma linha de pensamento onde o melhor para o país seja um governo que promova mudanças radicais em áreas de problemas estruturais, como seria implementado por João Goulart com suas reformas de base, projeto abortado pela Ditadura Militar. 

Carvalho considera normal essa polarização em uma democracia, e diz, em tom de crítica, que quem ganha nessa polarização entre PT e PSDB é a esquerda, pois ambos são de esquerda, o primeiro mais estatista e controlador que o segundo. 


7. Os comentários 

Aqui o autor dá sua opinião, mantendo uma visão imparcial, ora  criticando ambos os lados, ora elogiando e reconhecendo que um precisa do outro. Mostra-se  contra as doações de empresas a campanhas eleitorais, é a favor de uma maior taxação dos mais ricos e faz uma análise dos casos dos Estados Unidos e da China, de um lado, um país democrático que respeita  as liberdades individuais (embora  tenha-se descoberto casos de espionagem na internet) e livre mercado, em oposição ao comunismo (com economia capitalista), interferência do Estado na economia e limitação das liberdades. Em todo caso, a política deve evitar de se tornar um grande negócio para se tornar a atividade pela qual se busca ideias para uma vida mais justa.